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O Bigode começa a se desenhar

Não, não estou falando do curioso movimento da torcida portuguesa para a Copa de 2010 .

Estou falando do outro sentido da palavra “bigode“. Segundo o dicionário Houaiss, além de referir-se à “parte da barba que cresce sobre o lábio superior“, bigode também significa o “ato de pregar uma peça; logro, engano“, dando origem ao verbo “bigodear”.

As obras dos estádios já estão atrasadas (isso para não falar em infraestrutura das sedes). Segundo o site da ESPN Brasil, (em: “Sete dos 12 estádios da Copa-2014 não cumprirão prrazo Fifa’ para obras“, publicado em 14/02/2010), o cronograma da FIFA previa o início das obras em 1º de março de 2010. Pois na data da publicação citada, os estádios de Natal, Recife e Fortaleza sequer concluíram suas licitações para conhecer quem irá construí-los. Ao que a matéria indica, os planos dessas sedes já eram o de descumprir o cronograma desde o início, pois as datas de conclusão dos processos de licitação foram marcados para o final do mês de março!

Paulo Calçade, da mesma ESPN Brasil, lembra que “Com a Copa das Confederações em 2013, as obras deverão estar prontas até o final de 2012 […] Os cartolas do futebol e da política têm, portanto, 34 meses para construir um Brasil inteiramente novo. Pelo menos essa foi a promessa feita quando o País foi escolhido para a Copa”. (do post Com muito seminário e pouca obra, Mundial no Brasil ainda não saiu do papel“, publicado no site da ESPN Brasil em 11/02/2010).

Calçade conclui dizendo: “Quanto mais tarde começarmos, mais caro vai ficar. Já percebeu, né?”

“Percebeu o que?” você está se perguntando. Algo que todos que viveram o pesadelo do Pan 2007 vêm especulando. Vitor Birner explica: “Pense como será quando dispensarem as licitações e aprovarem o aumento das verbas públicas em regime de urgência  por causa dos atrasos nas obras“.  (em: Já????????? – Copa no Brasil custa mais que o dobro da africana” 17/02/2010).

2010: ANO ELEITORAL

Mas pra que a pressa? Ainda estamos em março de 2010! Segundo o Ministro dos Esportes Orlando Silva Jr. (PCdoB-SP) (em declaração publicada na FolhaOnline em 05/03/2010 “Governo teme que eleição trave obras da Copa-2014“) “Temos uma data fatal para assinaturas de contratos e convênios, de modo que seja possível o repasse de recursos para as obras de infraestrutura de 2014. Quem não contratar até lá só poderá contratar em 2011″. Esta data é dia 03/06/2010!

(Obs.: Apesar de eu ter encontrado a constatação do Ministro em vários meios de comunicação, ainda não encontrei notícias sobre as atitudes que ele, em seu papel de Ministro dos Esportes, vem tomando para corrigir os atrasos das sedes).

Portanto, as sedes mais atrasadas correm o risco de perder todo o segundo semestre de 2010, restando apenas o biênio 2011/12 para desenvolver toda a infraestrutura que já se sabe necessária desde 2004, quando o Brasil se apresentou como único (e certo) candidato para sediar o torneio de 2014. Desde 2007, quando o Brasil foi formalmente eleito a sede da Copa. E desde 31/05/2009, quando as sedes foram formalmente anunciadas.

Será que teremos o caso de uma licitação em regime de urgência, prevista no inciso IV do artigo 24 da Lei 8.666/93?

Ou será que teremos aquilo que a doutrina jurídica classifica de “emergência fabricada“?

Os anos continuam passando e a Copa 2014 continua sendo tema recorrente em discursos, objeto de propaganda e até ameaças de políticos*. Mas obra e projetos de infraestrutura para o país (o famigerado “legado”) não deram as caras ainda…

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*Comentarei brevemente pois não quero perder um post inteiro falando sobre a atitude do Governador do RJ, Sérgio Cabral (PMDB-RJ), que chorou ao informar que, com a aprovação da chamada “emenda Ibsen” e a conseqüente alteração na distribuição dos royaltes do petróleo explorado no Brasil, privaria o Estado do RJ de uma receita de R$7 bi por ano, inviabilizando a preparação da Capital do Estado para receber os jogos da Copa 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. (conforme reporta o site da ESPN Brasil em: “VíDEO: Governador do Rio diz que Emenda Ibsen inviabiliza Copa de 2014 e Jogos de 2016” de 13/03/2010).

Se é essa a realidade das finanças públicas do RJ, talvez o Governador devesse rever a finalidade que vem dando às verbas públicas. Como demonstra o economista Luis Nassif (em sua coluna A defesa dos royalties do petróleo” de 19/03/2010) a finalidade desta verba seria sanar “a necessidade de estados e municípios realizarem investimentos para compensar os estragos e para suportar a indústria [do petróleo]”, e não a de promover eventos esportivos.

À sombra do Pan (Parte 2)

Ilustração de Dri Matsuda - http://drimatsuda.blogspot.com/

Ilustração de Dri Matsuda - http://drimatsuda.blogspot.com/

O site Maquina do Esporte traz hoje (29/04/2009) reportagem de Guilherme Costa sobre a Copa de 2014. O texto “Pan inspira controle de custos para a Copa” relembra o assunto no qual este blog vem insistindo: o passado.

O texto a seguir encontra-se em: http://maquinadoesporte.uol.com.br/v2/noticias.asp?id=12910

O discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, tem sido enfático: sempre que é questionado sobre as projeções de gastos para a Copa do Mundo de 2014, que será no Brasil, o dirigente rechaça comprometer o orçamento público com a reforma de estádios. Na África do Sul, em contrapartida, todas as arenas que serão usadas no Mundial têm investimento estatal. A disparidade entre a realidade de um e o discurso de outro tem como principal explicação a má impressão do Pan-Americano de 2007, no Rio de Janeiro.

A relação entre o Pan e o temor sobre a Copa do Mundo ficou clara em palestra de Caio Luiz de Carvalho, presidente da São Paulo Turismo, realizada na última terça-feira. Ele participou de um fórum organizado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing para debater o Mundial de 2014 e fez duras críticas à inflação dos gastos com o evento realizado no Rio de Janeiro.

Nós aprovamos um orçamento inferior a R$ 400 milhões para o Pan, mas esse valor subiu muito posteriormente e passou dos R$ 3 bilhões. É claro que isso desperta um temor. Não podemos esperar mais Engenhões”, disse Carvalho em relação ao estádio João Havelange, orçado em R$ 350 milhões e alugado depois ao Botafogo por R$ 30 mil mensais.

O presidente da São Paulo Turismo, que na época do lançamento da estimativa de gastos com o Pan era ministro do Esporte, usou o Engenhão como exemplo da falta de planejamento para o evento: “A construção de um estádio para a Copa do Mundo, por exemplo, consome ao menos R$ 1,5 bilhão se contarmos todas as obras paralelas que são necessárias. Se me perguntarem se eu quero um estádio novo em São Paulo, vou dizer que sim. Mas espero que me apresentem alguém para pagar essa conta. Não podemos fazer e depois submeter o espaço a uma licitação, que sempre tem preço lá embaixo”.

Há dois fatores que tornam o pensamento de Carvalho ainda mais contundente: o presidente da São Paulo Turismo admite a construção de um novo estádio em São Paulo, a despeito de a candidatura paulista ter definido o Morumbi como sua arena desde o início, e o discurso serve como crítica a outros projetos de cidades que postulam receber jogos da Copa.

“Não acredito que todas consigam fazer estádios apenas com dinheiro da iniciativa privada, como está se falando. Até onde eu sei, as candidaturas sem investimento público em estádios são de Porto Alegre, Curitiba e São Paulo. E falam de Natal, mas Natal eu não conheço. Nas outras, não sei o que pode acontecer”, ponderou o dirigente.

Carvalho vislumbra para a Copa do Mundo um cenário muito parecido com o Pan: “O orçamento era um, mas foi inflacionado e não encontrou quem pagasse a conta. Quando o evento estava perto de ser realizado, o governo precisou assumir para não passar vergonha. Isso pode acontecer também para 2014. Temos cinco anos, a maioria das obras ainda não começou e pouca coisa deve acontecer antes das eleições do ano que vem“.

Em todas as palestras realizadas no fórum sobre a Copa do Mundo de 2014, o atraso nas obras de estádios que precisam ser construídos foi tema recorrente. A justificativa comum à falta de iniciativa é a indefinição da Fifa, que só vai anunciar no dia 31 de maio as 12 cidades brasileiras que receberão jogos do torneio (atualmente, 17 brigam por essa condição).

A desconfiança sobre o prazo, contudo, não impediu Carvalho de projetar a construção de uma nova arena em São Paulo. “O prefeito Gilberto Kassab tem um projeto para a criação de um espaço multiuso, focado em shows, mas não será algo do tamanho que a abertura da Copa exige. Mas repito: se aparecer alguém que pague a conta, as coisas podem acontecer”, declarou o ex-ministro, que não vê nesse discurso uma ameaça ao Morumbi: “Acreditamos no projeto e no cronograma montado. Esse é o nosso estádio para a Copa do Mundo”.

E quem paga a conta? (Parte 1)

O jornalista Jânio de Freitas publicou em sua coluna na Folha de S. Paulo de 01/02/2009 o texto “A Copa da Leviandade” (disponível no Blog do Juca Kfouri, em: http://blogdojuca.blog.uol.com.br/arch2009-02-01_2009-02-07.html). O texto (que obteve grande repercussão na imprensa esportiva) aborda a estimativa de custo da Copa para o país. Segundo os cálculos efetuados pela Fundação Getúlio Vargas, o gasto será de R$35 bilhões. Observe que se trata de uma estimativa (o Pan no Rio 2007 custou cerca de 800% mais caro do que o inicialmente estimado).

Segundo a coluna de Jânio de Freitas, caso o valor se confirme, “equivaleria a duas vezes e mais 30% de todo o Orçamento para a Educação como será apresentado, amanhã [02/02/2009], na reunião ministerial. Ou quase nove vezes o Orçamento para Ciência e Tecnologia”.

Ele cita ainda outros números, como os R$ 3,5 milhões gastos pela cidade de Natal (RN) apenas para apresentar sua candidatura. Caso seja aprovada, a cidade gastará cerca de R$ 300 milhões apenas na construção do “Estádio das Dunas”, financiado por uma Parceria Público-privada (PPP – acostume-se com esta sigla, ela será muito citada nos próximos 5 anos).

O impressionante projeto de Natal (que inclui toda uma área em torno do estádio, num total de 45 hectares, onde também haverá bosque, hotéis, teatro, estacionamentos subterrâneos, prédios comerciais, shopping center e os centros administrativos do governo do Estado e da Prefeitura) está orçado em cerca de R$1,5 bilhões, mas a exploração comercial da área por uma empresa privada geraria um retorno financeiro “interessante” (não encontrei projeções de quantos reais significa “interessante” em nenhum site). Mas, a viabilidade do projeto já é questionada, como vemos na interessante matéria Técnicos contestam proposta do RN para a Copa de 2014”, publicada em 01/02/2009 na Tribuna do Norte Online (disponível em: http://tribunadonorte.com.br/noticias/99613.html).

Foto de divulgação do projeto do Complexo do Estádio das Dunas em Natal (RN).

Foto de divulgação do projeto do Complexo do Estádio das Dunas em Natal (RN).

Foto disponível em: http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Times/Selecao_Brasileira/0,,MUL973818-15071,00-NATAL+TEM+PROJETO+ARROJADO+DE+ARENA+PARA+SER+SEDE+DA+COPA+DO+MUNDO+DE.html