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O longo e tenebroso inverno de 2007 a 2014

Há tempos não atualizo este Blog.

Isso acontece pois não tenho lido notícias realmente relevantes sobre a preparação para a Copa de 2014.

Leio muitas notícias sobre obras atrasadas, respostas de políticos e discussões sem fim sobre a falta de ação dos Governos envolvidos em relação à infraestrutura necessária para receber o imenso público da Copa.

O fato mais relevante desde meu último post (no longínquo dia 06/05/2010, cujo tema era, veja você, o atraso nas obras…) foi o pseudo-fim da discussão sobre qual seria o Estádio de inauguração da Copa (decisão tardia e que teve mais gosto de política do que de criteriosa).

Todavia, não há grandes notícias sobre a construção deste novo estádio ou desenvolvimento do entorno. O que traz de volta a discussão sobre a viabilidade deste projeto.

Estes atrasos além de tornar praticamente impossível a possibilidade desta Copa cumprir sua real função (deixando o país sede com uma infraestrutura mais desenvolvida para sua população e possibilitar o crescimento da indústria do turismo) também está matando este Blog pela falta de assuntos relevantes!

Não sei se vale a pena repetir mais uma vez que o Brasil teve notícia de que sediaria uma Copa ainda em 2004, quando apresentou-se como candidato único para sediá-la, consumando-se o fato com o anuncio oficial em 30/10/2007.

Pois bem, estamos em 2011 e não tenho grandes notícias sobre obras e projetos para a Copa de 2014.

Tenho apenas discussões políticas que beiram o surrealismo, como bem apontou o jornalista Juca Kfouri em seu Blog (especialmente nos posts “Não se esqueça, hoje é dia 1o. de abril” de 01/04/2011, em: http://blogdojuca.uol.com.br/2011/04/nao-se-esqueca-hoje-e-dia-1o-de-abril/ e “Casa que não tem pão, todos gritam e ninguém tem razão” de 30/03/2011, em: http://blogdojuca.uol.com.br/2011/03/casa-que-nao-tem-pao-todos-gritam-e-ninguem-tem-razao/):

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Não se esqueça, hoje é dia 1o. de abril

Hoje é dia 1o. de abril.

Redobre sua atenção, fique de prontidão, porque é inevitável que apareça alguém que queira brincar com a sua cara.

Ontem, que era só 31 de março, até já apareceu, e no Jornal Nacional.

Ricardo Teixeira garantiu que as reformas e construções em nossos estádios, em 10 dos 12, estão dentro do prazo.

Só São Paulo e Natal são exceções.

Hoje é dia 1o. de abril, não se esqueça. É inevitável que apareça alguém para brincar com você.

Ontem era só dia 31 de março.

Mas o presidente da CBF, no poder há 22 anos num país sem nenhum estádio apto a  receber uma Copa do Mundo, antecipou a brincadeira com a sua, a minha, a nossa cara.

Em pleno Jornal Nacional.

Só tomando chá de cadeira, para esperar a queda de Ricardo Teixeira.

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Casa que não tem pão, todos gritam e ninguém tem razão

Então, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, diz que a Copa do Mundo no Brasil está mais atrasada do que estava a da África do Sul ao faltarem quase três anos para o começo do torneio.

Ricardo Teixeira, com medo de CPI,  elogia os políticos brasileiros, diz que não há motivos para preocupação, que tudo está dentro dos prazos e deixa claro que o problema é eleitoral, porque ele não cumprirá o que acordou com Blatter e não votará nele na eleição de junho para a presidência da Fifa.

Blatter também não mais apontará Teixeira para sucedê-lo em 2015.

E Orlando Silva, o ministro do Esporte, para piorar as coisas neste momento em que o Brasil odeia falar em laranjas e bananas viraram símbolos de racismo, diz que comparar o Brasil com a África do Sul é confundir laranjas com bananas.

Resta à querida ouvinte e ao caro ouvinte da CBN não acreditar nem em Blatter, nem em Teixeira, nem em Silva.

Embora Blatter pareça mais perto da realidade quando se sabe que a cidade de São Paulo, apontada com sede da abertura da Copa, nem sequer começou a construir o estádio destinado a ser palco do jogo inaugural.

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A brincadeira do prazo continua

Depois de a FIFA apresentar um cronograma, estabelecendo prazo para início das obras dos estádios em 01/03/2010 e de o Ministro dos Esportes, reconhecendo o atraso das obras, apresentar como “prazo final” o dia 03/05/2010, agora o Presidente do Comitê Organizador Local (coincidentemente também presidente da CBF) Ricardo Teixeira anunciou agora um “prazo fatal”:

“A realidade é que se atrasou muito nos projetos. Para esses projetos aprovados será dado um prazo fatal para que provem a capacidade financeira de cada uma dessas sedes de fazer um estádio. Terão prazo de perto de um mês para provar” (disse Ricardo Teixeira, segundo reportagem do GloboEsporte.com Copa 2014: Ricardo Teixeira diz que sedes terão ‘prazo fatal’ de um mês publicada em 04/05/2010).

Estranho a questão da capacidade financeira ser levantada só agora, quase um ano depois da escolha destas sedes. Essa questão não deveria ter sido abordada na altura em que se as cidades foram escolhidas? Fico me perguntando quais foram os critérios de escolha e o que foi discutido nas visitas dos técnicos da FIFA às cidades candidatas.

O “prazo fatal” de Teixeira (“perto de um mês“) coincide com o prazo para contratação do setor público neste ano em função das eleições: 03/06/2010. Caso este prazo não seja cumprido, os investimentos estatais só serão possíveis no ano que vem.

E SE O “PRAZO FATAL” NÃO FOR CUMPRIDO?

Quando foi anunciado o “prazo final” de 03/05/2010, o Ministro dos Esportes deixou no ar uma possibilidade de punição às cidades atrasadas, ao sugerir que a Copa precisaria de apenas 8 cidades para acontecer.

A possibilidade de diminuir o número de sedes foi afastada pelo Secretário-Geral da FIFA Jerome Valcke e também por Teixeira, que disse: “O Brasil é um país-continente, portanto o ideal é fazer a Copa do Mundo com doze sedes. Até para poder abranger o Brasil todo. Mas há uma semana eu havia dito que muitas cidades já estão com o sinal amarelo. Agora, amarelaram mais. Estamos mandando fazer a fiscalização e a verificação in loco de cada um dos estádios” (segundo a mesma reportagem do GloboEsporte.com acima citada).

Fica a pergunta: se, ao final do “prazo fatal” reconhecer-se a incapacidade de uma cidade sediar os jogos da Copa, o que o Comitê Organizador fará? Vai amarelar ainda mais o sinal?

VISTORIAS E SUBCOMISSÕES

Alheio à questão das cores dos sinais, o Secretário-Geral da FIFA declarou-se impressionado com o atraso e deixou seu recado:

‘Não adianta ficar mandando cartas. Muito pouca coisa foi feita. É hora de agir‘ – disse Valcke, referindo-se ao fato de Ricardo Teixeira ter enviado por escrito sua preocupação com os prazos para cada uma das cidades-sede da Copa de 2014“. (conforme informa Rafael Pirrho, do site GloboEsporte.com, em: Fifa mostra preocupação com 2014: ‘É incrível como o Brasil está atrasado’“, de 03/05/2010).

E o Comitê Organizador Local agirá. No mesmo dia em que foram publicadas as declarações de Valcke, foi divulgado no site da CBF que o Departamento de Estádios do Comitê irá fazer a vistoria técnica dos estádios e também avaliará o cronograma de obras em cada uma das 12 cidades, seguindo o seguinte cronograma:

5 de maio – São Paulo
6 de maio – Porto Alegre
7 de maio – Curitiba
10 de maio – Belo Horizonte e Rio de Janeiro
11 de maio – Brasília
12 de maio – Manaus
13 de maio – Cuiabá
17 de maio – Fortaleza
18 de maio – Natal
19 de maio – Recife
20 de maio – Salvador

Além disso, a Subcomissão Parlamentar que cuida dos gastos públicos com as obras da Copa 2014 (lembra dela?) resolveu realizar uma audiência pública (dia 14/05/2010 em São Paulo e no dia seguinte no Rio de Janeiro), com o objetivo de analisar atrasos de obras de adaptação de estádios e de mobilidade urbana (conforme informa o site De Olho em 2014, em “Subcomissão da Copa de 2014 vai analisar atraso em obras” de 05/05/2010).

Após apurações e vistorias, o que farão a Subcomissão Parlamentar, o Comitê Organizador Local (que se confunde com a CBF constantemente), a FIFA e os Ministros envolvidos?

Não faço a menor idéia! Espero que pelo menos eles tenham algum plano!

O preço de um “elefante branco” (parte 2)

Ilustração de Dri Matsuda: drimatsuda.blogspot.com

Há pouco mais de um ano, eu disse aqui no Blog que a expressão “Parceria Público-Privada” seria muito citada nos anos que antecedem a Copa 2014. Pois eu estava errado.

A expressão “Elefante Branco” tem sido muito mais popular!

Acabo de ler mais uma reportagem que aborda o tema: “Copa do Mundo deixará ‘elefantes brancos’, diz pesquisador” (da repórter Isabela Vieira, publicado no site da Agência Brasil de Comunicação em 24/03/2010), que reproduzo a baixo na íntegra.

Estranhamente, não foram a falta de PPPs ou a inviabilidade de sustentar as obras após a Copa que reabriram a discussão sobre diminuição do número de cidades sedes, mas sim o atraso destas obras.

Segundo reportagem do site d‘O Estado de S. Paulo (Ministro diz que cidades precisam apressar obras para Copa-2014“, de Pedro Fonseca e Rodrigo Viga Gaier, publicada em 25/03/2010) o Ministro dos Esportes disse durante um evento que: “A Copa acontece em 8 cidades (no mínimo). Doze foi um apelo que o Brasil fez para que o país inteiro pudesse participar. É preciso apertar o passo, cumprir os compromissos com a Fifa para que a Copa seja um sucesso”. Disse ainda que “o comitê local da Fifa já chamou a atenção das cidades e 3 de maio é um novo prazo para avaliarmos os estádios.”

Ainda segundo a reportagem do Estadão, “ao ser questionado diretamente o que poderia acontecer com as cidades que não cumprissem os prazos fixados com a Fifa, o ministro disse que ‘era melhor deixar para falar em 4 de maio’.”

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Enfim, a viabilidade econômica dos projetos não é um tema que tem sido tratado pelos envolvidos na organização da Copa. Aparentemente o simples fato de a FIFA ter aceitado a candidatura de uma cidade para sediar algumas partidas tira completamente a responsabilidade do poder público local de analisar a viabilidade e o legado de seus investimentos em “obras sem função social, com elevado custo de manutenção”.

Mas, para vocês que, como eu, gostam de perder tempo lendo sobre esse tipo de coisa, segue o texto a que me referi no início deste post:

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Copa do Mundo deixará “elefantes brancos”, diz pesquisador

Rio de Janeiro – O Brasil enfrentará desafios estruturais para a realização da Copa do Mundo de 2014. De acordo com o geógrafo da Universidade Federal Fluminense (UFF), Christopher Gaffney, o país caminha para a construção de elefantes brancos e demonstra falta de planejamento e de transparência nos gastos públicos. As informações constam de estudo apresentado hoje (23), durante o Fórum Social Urbano (FSU).

Segundo a pesquisa, não há controle nos gastos com a construção ou a recuperação de estádios das 12 cidades que receberão as competições. Ainda de acordo com o pesquisador, como o governo não conseguiu apoio da iniciativa privada para construção das arenas, que devem ter capacidade para 50 mil pessoas, fará aportes por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que destina R$ 4,8 bilhões para Copa do Mundo, sendo R$ 400 mil para cada município.

Gaffney disse também que a aplicação de dinheiro não conta com mecanismos de acompanhamento social e os orçamentos para reforma de três arenas foram extrapolados em menos de nove meses. Como exemplo, a pesquisa cita o Maracanã, no Rio, cujo orçamento inicial passou de R$ 500 milhões para R$ 600 milhões de 2009 para 2010, o Estádio do Morumbi, em São Paulo, que passou de R$ 136 milhões para R$ 240 milhões e do Estádio da Fonte Nova, em Salvador, de R$ 400 milhões para R$ 591 milhões.

O estudo questiona ainda o retorno dos investimentos governamentais na Copa, que também incluem infraestrutura urbana, transporte e benefícios fiscais. Gaffney estima que apenas para o retorno dos gastos com os estádios a ocupação das arenas deverá ser quadruplicada em relação a atual, embora os torcedores devam pagar mais pelos ingressos. Os preços passarão de R$ 20 e R$ 30 para R$ 45 e R$ 60.

Vai ter que arranjar torcedor disposto a pagar o dobro. Isso porque têm cidades do Norte e Nordeste que não tem tradição futebolística para lotar os estádios, como foi dito aqui e isso vai ser difícil depois da Copa. Ou seja, esses estádios devem acabar se tornando uma coisa que a gente conhece bem: os elefantes brancos”, afirmou o geógrafo, em referência a obras sem função social, com elevado custo de manutenção.

A pesquisa da UFF também chama atenção para o deslocamento dos torcedores no país durante a competição e alerta para o desafio da implementação de melhorias no transporte. “Não há uma estrutura ferroviária ligando o país e o próprio presidente da CBF reconheceu que o problema para a Copa são os aeroportos”, afirmou. Segundo o geógrafo, os R$ 6 bilhões anunciados pelo governo federal para os aeroportos são insuficientes.

O Bigode começa a se desenhar

Não, não estou falando do curioso movimento da torcida portuguesa para a Copa de 2010 .

Estou falando do outro sentido da palavra “bigode“. Segundo o dicionário Houaiss, além de referir-se à “parte da barba que cresce sobre o lábio superior“, bigode também significa o “ato de pregar uma peça; logro, engano“, dando origem ao verbo “bigodear”.

As obras dos estádios já estão atrasadas (isso para não falar em infraestrutura das sedes). Segundo o site da ESPN Brasil, (em: “Sete dos 12 estádios da Copa-2014 não cumprirão prrazo Fifa’ para obras“, publicado em 14/02/2010), o cronograma da FIFA previa o início das obras em 1º de março de 2010. Pois na data da publicação citada, os estádios de Natal, Recife e Fortaleza sequer concluíram suas licitações para conhecer quem irá construí-los. Ao que a matéria indica, os planos dessas sedes já eram o de descumprir o cronograma desde o início, pois as datas de conclusão dos processos de licitação foram marcados para o final do mês de março!

Paulo Calçade, da mesma ESPN Brasil, lembra que “Com a Copa das Confederações em 2013, as obras deverão estar prontas até o final de 2012 […] Os cartolas do futebol e da política têm, portanto, 34 meses para construir um Brasil inteiramente novo. Pelo menos essa foi a promessa feita quando o País foi escolhido para a Copa”. (do post Com muito seminário e pouca obra, Mundial no Brasil ainda não saiu do papel“, publicado no site da ESPN Brasil em 11/02/2010).

Calçade conclui dizendo: “Quanto mais tarde começarmos, mais caro vai ficar. Já percebeu, né?”

“Percebeu o que?” você está se perguntando. Algo que todos que viveram o pesadelo do Pan 2007 vêm especulando. Vitor Birner explica: “Pense como será quando dispensarem as licitações e aprovarem o aumento das verbas públicas em regime de urgência  por causa dos atrasos nas obras“.  (em: Já????????? – Copa no Brasil custa mais que o dobro da africana” 17/02/2010).

2010: ANO ELEITORAL

Mas pra que a pressa? Ainda estamos em março de 2010! Segundo o Ministro dos Esportes Orlando Silva Jr. (PCdoB-SP) (em declaração publicada na FolhaOnline em 05/03/2010 “Governo teme que eleição trave obras da Copa-2014“) “Temos uma data fatal para assinaturas de contratos e convênios, de modo que seja possível o repasse de recursos para as obras de infraestrutura de 2014. Quem não contratar até lá só poderá contratar em 2011″. Esta data é dia 03/06/2010!

(Obs.: Apesar de eu ter encontrado a constatação do Ministro em vários meios de comunicação, ainda não encontrei notícias sobre as atitudes que ele, em seu papel de Ministro dos Esportes, vem tomando para corrigir os atrasos das sedes).

Portanto, as sedes mais atrasadas correm o risco de perder todo o segundo semestre de 2010, restando apenas o biênio 2011/12 para desenvolver toda a infraestrutura que já se sabe necessária desde 2004, quando o Brasil se apresentou como único (e certo) candidato para sediar o torneio de 2014. Desde 2007, quando o Brasil foi formalmente eleito a sede da Copa. E desde 31/05/2009, quando as sedes foram formalmente anunciadas.

Será que teremos o caso de uma licitação em regime de urgência, prevista no inciso IV do artigo 24 da Lei 8.666/93?

Ou será que teremos aquilo que a doutrina jurídica classifica de “emergência fabricada“?

Os anos continuam passando e a Copa 2014 continua sendo tema recorrente em discursos, objeto de propaganda e até ameaças de políticos*. Mas obra e projetos de infraestrutura para o país (o famigerado “legado”) não deram as caras ainda…

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*Comentarei brevemente pois não quero perder um post inteiro falando sobre a atitude do Governador do RJ, Sérgio Cabral (PMDB-RJ), que chorou ao informar que, com a aprovação da chamada “emenda Ibsen” e a conseqüente alteração na distribuição dos royaltes do petróleo explorado no Brasil, privaria o Estado do RJ de uma receita de R$7 bi por ano, inviabilizando a preparação da Capital do Estado para receber os jogos da Copa 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. (conforme reporta o site da ESPN Brasil em: “VíDEO: Governador do Rio diz que Emenda Ibsen inviabiliza Copa de 2014 e Jogos de 2016” de 13/03/2010).

Se é essa a realidade das finanças públicas do RJ, talvez o Governador devesse rever a finalidade que vem dando às verbas públicas. Como demonstra o economista Luis Nassif (em sua coluna A defesa dos royalties do petróleo” de 19/03/2010) a finalidade desta verba seria sanar “a necessidade de estados e municípios realizarem investimentos para compensar os estragos e para suportar a indústria [do petróleo]”, e não a de promover eventos esportivos.

O preço de um “elefante branco”

Portugal abrigou a edição de 2004 da Eurocopa, mesmo sob os protestos de parte da população, preocupada com o custo que tal evento lhes traria. Cinco anos e meio depois, o tema ainda é discutido por lá, pois como se suspeitava, a conta a pagar é muito alta.

Lá, a escolha dos 10 estádios deu-se priorizando sua distribuição pelo território português e o peso político de algumas cidades. Esqueceram de levar em conta a viabilidade de manutenção destes projetos a longo prazo.

Tais projetos pretendiam pagar a manutenção realizando outros grandes eventos nestes estádios após o torneio (como podemos perceber no site oficial do estádio municipal de Aveiro). O que os projetos provavelmente não previam é QUEM iria trazer um evento do porte de um estádio de futebol para a sua cidade. Afinal de contas, no caso de Portugal, os grandes eventos costumam ir para as maiores cidades do país: Lisboa e Porto (que também reformaram seus estádios para receber a Euro’04).

Da mesma forma, os grandes eventos costumam procurar os centros financeiros e populacionais do Brasil (especialmente São Paulo e Rio de Janeiro). Será que a mera existência de um estádio moderno levará estes eventos para todas as outras 10 cidades que receberão a Copa?

Em Portugal isso não aconteceu, e a conta da manutenção destes estádios está tornando sua mera existência inviável. Por este motivo, o ex-ministro da economia de Portugal, Augusto Mateus, está sugerindo a demolição de 5 dos 10 estádios usados na Euro’04. Segundo ele: É muito complicado lidar com as dívidas de algo que não cria riqueza nem representa um bem público“. (Conforme reporta o site Máquina do Esporte na reportagem “Portugal cogita demolir estádios da Euro“, de 19/01/2010).

Estádio de Aveiro é um dos mais inviáveis em Portugal. Foto disponível em: http://www.ema.pt/fotografia2.php?id=4&cat2=Panorâmicas Gerais do Estádio

Reproduzo a seguir o texto “Alerta para 2014! A manada da Euro-04 assola Portugal“, de Erich Beting (publicado em seu Blog em 19/10/2010) que trata sobre o mesmo tema:

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Em tempos de pré-Copa do Mundo brasileira, seria interessante que o digníssimo ministro do Esporte, Orlando Silva Jr., passasse a ler o noticiário de Portugal.

Cinco anos e meio após a Eurocopa que revolucionou alguns velhos estádios portugueses, dando aparentemente novo fôlego ao futebol na terrinha, a esfera pública está atolada em dívidas e com dificuldade para manter em dia o pagamento da construção dessas magníficas arenas que vivenciaram cerca de um mês de festa.

Por ano são mais de 13 milhões de euros que o governo gasta para manter de pé os elefantes coloridos, porque muitos deles já têm cadeiras multicores para dar a falsa impressão de que o estádio está cheio.

A situação menos pior é o estádio de Braga. O clube, que lidera o Campeonato Português, consegue encher cerca de 40% da arena por partida. O Beira-Mar, que joga as partidas da Segunda Divisão portuguesa no estádio de Aveiro, completa por volta de 5% dos 30 mil lugares do estádio municipal. Por isso mesmo, a prefeitura já cogita demolir o estádio e vender o terreno para a especulação imobiliária.

Seria interessante que o ministro, tão bem informado a ponto de afirmar que o investimento para receber uma Copa do Mundo já se justifica ter investimento em arena esportiva em locais onde não há um grande consumo do futebol, pensasse no que será dos nove estádios programados para o Mundial de 2014 e que não são da iniciativa privada.

Lá em 2019, aposto que Maracanã e Mineirão ainda estarão com as contas em dia, sendo exaltados como exemplos de como a Copa ajudou a melhorar ainda mais o país do futebol. As outras sete formidáveis arenas, se continuarem pensando apenas no Mundial tupiniquim, estarão desesperadas para que alguma empresa compre o espaço e o transforme num shopping.

E isso que nem estamos falando aqui do fato de que estamos a apenas quatro anos da Copa de 2014 e simplesmente nenhuma obra teve início. Não de estádios. Mas de infraestrutura, algo que é muito mais importante para a população e, aí sim, justifica os gastos.

Em tempos de pré-Copa do Mundo brasileira, seria interessante que o digníssimo ministro do Esporte, Orlando Silva Jr., passasse a ler o noticiário de Portugal.

Cinco anos e meio após a Eurocopa que revolucionou alguns velhos estádios portugueses, dando aparentemente novo fôlego ao futebol na terrinha, a esfera pública está atolada em dívidas e com dificuldade para manter em dia o pagamento da construção dessas magníficas arenas que vivenciaram cerca de um mês de festa.

Por ano são mais de 13 milhões de euros que o governo gasta para manter de pé os elefantes coloridos, porque muitos deles já têm cadeiras multicores para dar a falsa impressão de que o estádio está cheio.

A situação menos pior é o estádio de Braga. O clube, que lidera o Campeonato Português, consegue encher cerca de 40% da arena por partida. O Beira-Mar, que joga as partidas da Segunda Divisão portuguesa no estádio de Aveiro, completa por volta de 5% dos 30 mil lugares do estádio municipal. Por isso mesmo, a prefeitura já cogita demolir o estádio e vender o terreno para a especulação imobiliária.

Seria interessante que o ministro, tão bem informado a ponto de afirmar que o investimento para receber uma Copa do Mundo já se justifica ter investimento em arena esportiva em locais onde não há um grande consumo do futebol, pensasse no que será dos nove estádios programados para o Mundial de 2014 e que não são da iniciativa privada.

Lá em 2019, aposto que Maracanã e Mineirão ainda estarão com as contas em dia, sendo exaltados como exemplos de como a Copa ajudou a melhorar ainda mais o país do futebol. As outras sete formidáveis arenas, se continuarem pensando apenas no Mundial tupiniquim, estarão desesperadas para que alguma empresa compre o espaço e o transforme num shopping.

E isso que nem estamos falando aqui do fato de que estamos a apenas quatro anos da Copa de 2014 e simplesmente nenhuma obra teve início. Não de estádios. Mas de infraestrutura, algo que é muito mais importante para a população e, aí sim, justifica os gastos.

Dois anos depois… E quatro anos e meio antes.

Em 30/10/2007 o Brasil foi eleito como a sede da Copa de 2014. Dois anos depois ainda estamos discutindo quando iniciar as reformas e construções dos estádios e os projetos das cidades que hospedarão os jogos.

O Maracanã (RJ) deve começar sua reforma em janeiro. O Mineirão (MG) já discute adiar suas reformas para depois da Libertadores 2010 (isto é, até meados de 2010). Ainda levantam dúvidas sobre a viabilidade do Murumbi (SP) como estádio da cidade de São Paulo…

Os projetos das cidades mudaram, os preços dos projetos mudaram, até a palavra do presidente da CBF mudou (como lembra Erich Beting no post abaixo: Ricardo Teixeira dizia que não seria o presidente do Comitê Organizador da Copa).

Outras coisas não mudaram: ainda não temos o tão esperado site oficial da Copa 2014…

Na falta de informações oficiais, deixo-vos com as palavras do jornalista Erich Beting, em post publicado em seu Blog em 01/11/2009, http://negociosdoesporte.blog.uol.com.br/arch2009-11-01_2009-11-07.html#2009_11-01_20_38_58-136381883-0

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Preparemos as aspirinas

“Como é que eu posso tomar remédio agora para uma dor de cabeça que terei só daqui a três meses?”.

Essa foi a frase dita por Ricardo Teixeira, presidente da CBF e do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014, publicada neste domingo na coluna Painel FC da “Folha de São Paulo”. Teixeira se referia, no caso, a eventuais problemas que possam vir a ter as 12 cidades programadas para serem sede de jogos do Mundial.

De fato não adianta tomar remédio para prevenir a dor de cabeça, mas bem que poderíamos ter tomado diversas outras atitudes para evitar que a Copa do Mundo no Brasil se transforme numa daquelas enxaquecas terríveis de se controlar.

Ontem completaram-se dois anos da escolha do Brasil para ser sede do Mundial de 14, como sempre gosta de dizer o presidente da CBF, que também sempre gostava de dizer que não presidiria a CBF e o COL (Comitê Organizador Local) ao mesmo tempo…

Planejamento e execução são duas palavras, nesse caso, bem melhores do que uma aspirina para a dor de cabeça que já se transforma a Copa no Brasil. Há dois anos o país faz acordos políticos, troca de gentilezas e outras cositas mais em torno da discussão de como as cidades precisam se preparar para o Mundial.

Foram dois anos de tanto lobby que se esqueceu do básico, que é trabalhar. Até quinto estádio em São Paulo se cogita nessa loucura que se transformou o “caderno de encargos” da Fifa. Isso sem falar nos mamutes de Brasília, Manaus e Cuiabá, ou no despropósito que é ter mais uma arena para a prática de futebol em Recife.

É melhor começar desde já a preparar o estoque de aspirina, porque daqui a pouco vai chegar a hora de tentar controlar uma enxaqueca daquelas…

Ê Cuiabá…

Novo projeto do estádio de Cuiabá pra 2014, o "Novo Verdão". Fonte: www.copanopantanal.com.br

Novo projeto do estádio de Cuiabá pra 2014, o "Novo Verdão". Fonte: http://www.copanopantanal.com.br

O Blog do José Cruz, já recomendado por nós no último post, trouxe uma série de posts detectando um dos primeiros abusos das finanças públicas da Copa de 2014.

Em “Copa 2014, começou a festa“, publicado em 25/08/2009, ele explica que, 5 anos antes da Copa, o Governo do Mato Grosso já está dispensando licitações por falta de tempo!

O governo do estado contratou, sem licitação, o projeto executivo para construir o estádio municipal [a um custo de R$ 14 milhões]. (…)

Além disso, o governo contratou uma “consultoria técnica” de R$ 400 mil mensais, pagos também atropelando as normas legais, isto é, sem licitação.

Veja bem, estamos falando apenas em projetos e consultorias. A construção de fato está orçada em mais R$ 400 milhões.

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Em “Copa da sustentabilidade“, publicado no mesmo dia, traz a justificativa que recebeu do assessor de imprensa do Governo de MT, o jornalista Orlando Morais:

Entre a escolha das cidades-sedes e a apresentação do projeto à Fifa era pouco mais de um mês. Diante disso, o governo se valeu de recurso na legislação do estado para fugir da licitação. Tudo legal, garante Morais.

Assim, a empresa paulista GCP Arquitetos foi a escolhida para elaborar o projeto do estádio, ao custo de R$ 14 milhões, pagos pelo contribuinte.

Conforme Orlando Morais, a empresa em questão é especializada em projetos ambientais, com perfil ecológico, adequado ao tema que o governo do Mato Grosso elegeu para 2014: “Copa da sustentabilidade”…

O jornalista Morais também confirmou a contratação de uma empresa para assessorar o governo na preparação da Copa do Mundo, conforme divulguei.

A eleita foi a Deloitte, que, igualmente, escapou da licitação por ser de reconhecida capacidade para o trabalho em questão. Também, tudo legal.

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Já no dia 26/08/2009, o post “O primeiro escândalo” lembra que Cuiabá teve de apresentar um projeto para concorrer ao direito de sediar a Copa:

O governador de Mato Grosso, Blairo Borges Maggi, não precisava gastar R$ 14 milhões para elaborar às pressas um projeto de estádio para receber os jogos da Copa do Mundo (…)

Não precisava porque já era dono de um projeto que foi usado, inclusive, para eleger Cuiabá, junto à Fifa, como uma das sedes da Copa.

Porém, alegando que a obra original tinha custo elevado (R$ 500 milhões), decidiu rasgar a proposta e chamar outra empresa, fugindo da tal licitação, recurso público-administrativo que dá transparência nas ações governamentais.

(…) Ou seja, o governador pagou duas vezes para ter um só projeto.

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Por fim, também destacamos o texto “Matemática do mundial“, também do dia 25/08/2009, em que o jornalista Walter Guimarães faz um levantamento que questiona a utilidade do projeto para a população do MT e sua viabilidade financeira.

Nos últimos seis anos, os times do Mato Grosso arrecadaram um total de R$ 642.632,00 na disputa da Série C, o que dá a média de R$ 107.000,00 por ano.

Então para pagar o estádio, contando apenas a renda dos times nos Brasileiros, e com toda a renda sendo repassada para o estado (o que não acontece), seriam necessários apenas 3.700 anos para pagá-lo.

(…) Outro detalhe, nesses seis anos, foram 81.136 torcedores aos jogos. O Verdão vai ter 40 mil lugares, ou seja, o total de pagantes nesses anos quase cabe em dois jogos do novo estádio.

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A comparação com o Pan faz-se, novamente, inevitável. É a conclusão de Cruz: “De fato, o Pan-2007 fez escola. Serviu para um aprendizado impressionante“.

Recomendo mais uma vez uma visita ao Blog do José Cruz, no endereço blogdocruz.blog.uol.com.br. Aproveite para ler lá todos estes textos na íntegra!

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